Avaliação psicopedagógica

Avaliação psicopedagógica é oportunidade de aprendizagem e mudança

A avaliação psicopedagógica não é apenas um ponto de partida para o processo interventivo da psicopedagogia, é também oportunidade de aprendizagem. Ela nos auxilia a identificar quais são as modalidades mais funcionais usadas pelo aprendente, como o sujeito da aprendizagem lida com o não saber e como nomeia e identifica aspectos do processo de aprendizagem que ainda não são dominados com autonomia.

É fundamental que a avaliação psicopedagógica ofereça oportunidade para experiências significativas e vivência que privilegiem processos, não apenas o produto em si.  A valorização da experiência contribui para a emergência do potencial de aprendizagem, além da participação mais ativa e confortável para o avaliado. Apesar dos cuidados, no processo avaliativo, o desconforto é pertinente, pois avaliar visa pesquisar o modo como se lida com o não saber. Neste sentido é importante o acolhimento do avaliado, tranquilizando-o sobre o significado e a utilidade da pesquisa avaliativa para a identificação dos aspectos a serem trabalhado no processo interventivo.

No quesito articulação entre avaliação e aprendizagem, destaco a contribuição de Reuven Feuerstein, psicólogo que propôs um modelo de avaliação dinâmica do potencial de aprendizagem na década de 60. Esta modalidade é significativa e inovadora para a época e para a contemporaneidade. Neste sistema visa-se identificar além das questões cognitivas e reacionais, mudanças na relação com o conhecer, além da consciência meta cognitiva já durante o processo avaliativo. Isto se deve a uma mediação educacional específica que o autor denomina Experiência de Aprendizagem Mediada-EAM (Meier&Garcia,2007; Tebar, L. 2011). Através dessa prática e usando critérios específicos pelo mediador, são propostas atividades significativas para relacioná-las analogamente a outras vivências. Dos doze critérios propostos pelo autor, três são essenciais para considerar a presença da EAM:

  1. intencionalidade/reciprocidade: quando o mediador tem claro para si mesmo o que pretende, a reciprocidade é avaliada pela resposta do mediado. Quando ela é inadequada, cabe reformular conteúdo e forma de modo a se obter alguma reciprocidade. Essa posição caracteriza o dinamismo do processo.
  2. significado, isto é a proposta deve conter significado para ambos, o mediado e mediador precisam reconhecer algum sentido na proposta.
  3. transcendência, isto é o mediador constrói junto como mediado uma possível relação da experiência atual com uma anterior, isto é, fazem uma analogia. Entre os doze critérios de mediação o “sentimento de competência” é um dos alvos a serem construídos no processo avaliativo/interventivo. Nesse tipo de avaliação assistida, são consideradas possíveis mudanças sistêmicas: quando o avaliado aprende durante a avaliação habilidades cognitivas como: observar, comparar, identificar, estabelecer relações poderá lidar com o conhecimento conceitualmente, suas respostas são qualitativamente superiores aquelas que foram realizadas sem EAM.

Faz diferença a avaliação psicopedagógica que leva em consideração não apenas os aspectos cognitivos, atualmente supervalorizados. As modalidades de avaliações que privilegiam mapeamento das habilidades cognitivas a partir de recursos padronizados e analisados classicamente têm causado desconforto excessivo aos avaliados e seus responsáveis devido a “fantasia” da incerteza sobre as possibilidades de modificabilidade.

Ressalva feita a alguns relatórios neuropsicológicos que alertam:  os resultados referem-se a um determinado momento existencial. Esse alerta é fundamental e revela a preocupação com o conceito de “profecias auto realizadoras”, as quais contribuem para o desencadeamento de crenças que não colaboram num processo de reabilitação e desenvolvimento.

Reconheço que as avaliações neuropsicológicas podem contribuir como ponto de partida para oferecer algumas diretrizes na intervenção psicopedagógica.

Quando sublinho o lugar da avaliação psicopedagógica interventiva quero apontar o foco da mesma enquanto objetivo: analisar e compreender a relação do sujeito da aprendizagem com o conhecimento e o saber, atravessado pelos discursos e crenças próprias e as do contexto. Neste contexto a ferramenta principal é o terapeuta psicopedagogo que com a sua escuta e sensibilidade propões recursos que lhe permitam compreender o sujeito da aprendizagem a partir das quatro estruturas e dos discursos presentes na relação de aprendizagem.

A sensibilidade e a queixa apresentada pelo sujeito da aprendizagem norteiam e promovem a escolha de ferramentas para a ocasião que entendo como um encontro para aprender algo sobre mim e sobre o outro. O objeto de pesquisa do psicopedagogo é a escuta da queixa escolar atravessada pelos discursos dos adultos, mas, aberta a escuta de outras modalidades discursivas presentes em atividades diferenciadas, como nas diferentes modalidades de jogo: exercício, simbólico, regra, construção.

Funções da avaliação psicopedagógica: o “aprendente funcional”

A avaliação psicopedagógica ocupa outra função importante: apresentar oportunidade para que o sujeito da aprendizagem se perceba “aprendente funcional” durante o processo, desenvolvendo e construindo sentimento de competência. Isso requer abertura para não seguir um script pré-determinado e sim oferecer atividades que permitam pesquisar o funcionamento cognitivo e a relação do sujeito da aprendizagem com o saber e a ignorância, no sentido que Pain coloca em sua obra Subjetividade e Objetividade, relação entre desejo e conhecimento, 2012.  Uma delas refere-se ao funcionamento harmônico ou não entre as estrutura simbólica e inteligência.

Também interessa pesquisar como um sujeito da aprendizagem lida ou assume seu não saber, identificando e nomeando o objeto do conhecimento. Enfrentar o não saber costuma ter conotação negativa para um estudante iniciante. Será uma crença cultural? Uma crença do sujeito? Ambas crenças estão presentes, possivelmente a oportunidade da avaliação dinâmica traga um “alívio” para o estudante ao se perceber funcional na performance e reconhecido pelo avaliador. Avalia-se primordialmente o potencial de aprendizagem.

Outra contribuição fundamental é a de Reuven Feuerstein, para quem ensina e quem aprende quando propõe identificar funções cognitivas presentes no ato mental. Essa ferramenta é muito útil quando se observam processos durante as diferentes atividades, sejam elas com materiais estruturados e padronizados ou não. As funções cognitivas têm por objeto identificar habilidades necessárias para a funcionalidade de operações mentais. Essa contribuição favorece a leitura e compreensão do avaliador e do aprendente ao identificar habilidades cognitivas envolvidas na realização de qualquer atividade e no processo da aprendizagem.

Considero importante sua continuidade no sentido de identificar potenciais e condições de deslocamentos de diferentes ordens que contribuam para mudanças de posição diante do aprender e do ser reconhecido nos diferentes contextos como aprendente. A avaliação psicopedagógica oportuniza o nascimento de novas narrativas no existir, isto é, estar no mundo dos envolvidos: terapeutas, família, escola e aluno.

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