Como repensar as dificuldades de aprendizagem

A Psicopedagogia enquanto prática vem conquistando espaço importante na comunidade de profissionais preocupada com aprendizagem e, mais especificamente, com o fracasso escolar e a dificuldade de aprendizagem. Nessa trajetória é possível distinguir várias modalidades e estilos de práticas psicopedagógicas, as quais são reflexo das conversas com diferentes compreensões teóricas. Cada profissional exerce sua prática polifonicamente considerando suas escolhas teóricas bem como sua própria aprendizagem.

Algumas contribuições da abordagem construcionista social me ajudam na identificação, nomeação e diálogo com diferentes formas discursivas que descrevem a dificuldade de aprendizagem, pelos diferentes profissionais. Cada “comunidade linguística” expressa através das diferentes narrativas, suas versões sobre a dificuldade de aprendizagem e suas possíveis origens. Na obra Construcionismo social, um convite ao diálogo, (Gergen & Gergen: 2004, p.32) os autores fazem distinção entre Verdade (única e indiscutível) e verdade (versão). Esta distinção pode, em parte, contribuir para compreender as diferentes maneiras de classificação e identificação das questões do aprendente com o conhecimento e o saber.

“Os cientistas geralmente argumentam que, através de seus métodos, eles conseguem chegar cada vez mais perto do mundo como realmente ele é (…). Nem todas as ideias construcionistas desvalorizam as iniciativas científicas, mas, certamente, desafiam a ideia de que a ciência revela a Verdade”.  (grifo meu)

Pessoalmente me identifico com o estilo da Psicopedagogia Dinâmica introduzida no Brasil na década de 1980, a partir das contribuições de Sara Pain, Ana Maria Rodriguez, Alicia Fernandez, Jorge Visca, profissionais argentinos, que articulam a Psicopedagogia com as contribuições da Psicanálise e da Psicologia Genética. Paín propõe compreender a queixa escolar ou a dificuldade de aprendizagem através das quatros estruturas, as quais envolvem:

  1. corpo, atravessado pela subjetividade e cognição, o qual se expressa, isto é, fala de uma posição do sujeito frente à aprendizagem;
  2. organismo, referindo-se aos aspectos orgânicos, físicos;
  3. estrutura simbólica, referindo-se às questões da subjetividade e relacionais;
  4. inteligência, referindo-se à cognição.

Esta autora alerta: nem sempre questões orgânicas determinam dificuldades de aprendizagem. Fiz uma metáfora para essas quatro estruturas as quais seriam como um banquinho que suporta o processo de aprendizagem do aprendente e a aprendizagem em si. Uma avaliação psicopedagógica pautada pelas quatro estruturas favorece a compreensão das questões relacionadas à aprendizagem dentro de um contexto amplo, complexo, dinâmico devido às múltiplas variáveis.

A linguagem enquanto discurso também é objeto de escuta na avaliação, Sara Pain propõe considerar o modo como cada adulto significativo descreve o motivo da queixa escolar: “as coisas não entram”, no sentido da impossibilidade; “não saem”, no sentido de que estão presentes, porém por diferentes razões o sujeito da aprendizagem não consegue expressá-las; ou “não ficam”, no sentido de que os objetos do conhecimento não são guardados (Pain, 1985).

A escuta destas categorias expressivas permite inferir possíveis crenças construídas pelos adultos significativos a respeito da aprendizagem do filho ou aluno. Na intervenção objetiva-se a dissolução destas crenças que são de alguma forma barreiras para a aprendizagem. Vale lembrar a expressão da peça “Minha querida Lady” (Bernard Shaw): “A diferença entre uma lady e uma florista não é a sua origem nobre, mas o modo como é tratada”.

Fará diferença na manifestação da modalidade de aprendizagem o modo como um aprendente é tratado, visto, escutado, descrito. Para o bem ou para o mal, categorizações estão sempre presentes. O desafio é como considerá-las a partir de uma escuta aberta, que não seja pautada por concepções essencialistas e deterministas, no sentido de aceitar as condições do aluno como imutáveis e permanentes.

A abordagem construcionista social nos convida a ler nas entrelinhas as diferentes narrativas construídas em diferentes instâncias. Penso que a avaliação psicopedagógica pode contribuir para uma nova narrativa, possivelmente diferente das descrições tradicionais.

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